Farda

Antes de entrar para o CBMSC, eu sempre ficava escolhendo looks para ir trabalhar. Agora é mais fácil, pois tenho fardas! E em geral, uso o 5ºA, que é prático e confortável. Mas a farda é demais. Eu me sinto muito massa fardada. Não só por que ela representa minha carreira e profissão, mas por que ela me veste como um escudo. Eu me sinto protegida, sinto que ela mostra quem eu sou. Às vezes nem de laçarotes me sinto tão “eu”.

Como bem disse o General Octávio Costa, “a carreira militar não é uma atividade inespecífica e descartável, um simples emprego, uma ocupação, mas sim um ofício absorvente e exclusivista, que nos condiciona e autolimita até o fim. Ela não nos exige as horas de trabalho da lei, mas todas as horas do dia, nos impondo também nossos destinos. A farda não é uma veste, que se despe com facilidade e até com indiferença, mas uma outra pele, que adere à própria alma, irreversível para sempre”.

Desafios

Me empolguei, recentemente, em voltar a correr: passei um período com o joelho machucado e a preguiça falando alto. Então, na última semana, entrei numa empolgação master e consegui correr quase todos os dias. Isso foi bom por que, cada vez que eu ia, se tornava mais fácil; sentia o sangue pulsando e mesmo que estivesse mega frio, em breve eu estava quentinha e feliz. Então ontem, o tempo tava meio chuvoso. Quando deu um trégua eu fui. A meta era correr 6 voltas na praça. Lá pela quinta volta, começou a chover de novo. Ai me lembrei de todas as vezes que fomos correr no CFO, com chuva, com sol, com frio, com calor… com todas as situações adversas.

E eu comecei a refletir em todos os desafios e medos que tive que superar para chegar onde estou agora. Posso garantir que não foi fácil, mas que em todos os momentos eu lutei com garra. “Só estando nesta carcaça para saber” todas as vezes que dormi menos do que queria, que treinei mais do que eu queria, que comi o que eu deveria, que deixei de sair com amigos, que deixei de ficar com a minha família.

Lembro-me daquele período de preparação para o concurso do CFO. Todos os meus dias eram planejados com base nos estudos. Depois, com base nos treinos para o Teste de Aptidão Física. Tudo era extremamente regrado pois eu tinha uma meta, um sonho. E nenhum sacrifício é grande demais ou pesado demais para alcançarmos nossos sonhos. E eu tinha, que nem diz o Rocky Balboa, o ‘eye of tiger’. Aquela garra, aquela força, aquela certeza da vitória. Sem essa força interna, o desafio seria bem maior.

Entrar para os bombeiros exige sacrifícios. E não é por que me formei que o sacrifício acabou. A profissão continua exigindo prontidão, preparo físico, abrir mão de certos confortos. Mas eu amo muito tudo isso. E não tem nenhum outro lugar em que eu gostaria de estar. Abrir mão, ser desafiado, ter brilho nos olhos, isso só é parte de quem eu sou.

 

Lembranças

Hoje as minhas lembranças do Facebook me mostraram várias coisas legais e entre elas, o meu último dia na empresa de comunicação na qual eu trabalhava antes de entrar no Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina. Duas fotos, de duas amigas, me desejando sorte e sucesso na nova carreira. Eu estava com um sorriso estampado no rosto, mega feliz, realizada e reluzente. Por quê? Eu estava com o sentimento de dever realizado, de final de fase. Sabia que o que me aguardava seria aquilo que eu havia buscado, conquistado com muito esforço e muita dedicação. Que seria a realização de um sonho e de uma meta, pela qual eu tinha lutado muito para alcançar. Não estava em clima de despedida, nem sequer estava triste ou com medo do que me aguardava, o que é natural acontecer.

Claro que, na época, várias pessoas olharam com estranheza minha decisão de mudança de vida. “Nossa, mas como assim?” muitos me perguntavam. Mesmo que minhas explicações não tornassem claras minha decisão, eu sabia que era o certo. E era isso que importava. Às vezes, durante o CFO, em momentos de desafio, em que eu chegava em casa absolutamente destruída, sem forças ou machucada, minha mãe me perguntava: “E ai, saudades da RBS?” e eu respondia “De jeito nenhum!”. Não que fosse ruim trabalhar lá. Pelo contrário, eu gostava. Mas, depois que decidi entrar para os Bombeiros, aquele universo todo parou de fazer sentido. Aquele universo continua fazendo parte de quem eu fui e do que me tornei hoje, porém, é uma lembrança distante. Hoje, três anos depois, não poderia estar mais feliz e mais realizada. Foram dois anos de Curso de Formação de Oficiais e quase um ano trabalhando no 2º Batalhão de Bombeiros.

Nossa fofurinha agora segue novos caminhos…Lu, te desejo todo sucesso do mundo. Competência e dedicação são virtudes que já fazem parte do seu dia a dia… vai lá, e voa alto minha amiga linda” (Grazi)

“Ficar feliz pelo sucesso das amigas. <3 Boa sorte, Lu!” –  (Nyna)

 

Estrelas

Quando entramos no CFO, ganhamos risquinhos no ombro. Um para cada semestre vencido. Desde o ínicio, desejávamos estrelas nos ombros. No princípio, só uma: a dourada de aspirante. Agora, no aspirantado, desejamos uma prateada. E a cada uma conquistada, desejaremos mais uma. E depois de três prateadas, iremos querer uma dourada, depois duas, depois três.

A cada estrela desejada, um novo sonho e uma nova batalha estão por vir. Aspirando a novos rumos, a novos sonhos, a novas conquistas. E depois da primeira, as outras não parecem tão longe ou tão inalcançáveis.

O aspirantado me fez ver que com novas estrelas surgem mais responsabilidades, novas oportunidades de fazer melhor e mais bem feito. Assim, a cada dia que passa, estou mais perto de me tornar oficial do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina. E em breve, a minha estrelinha dourada, tão almejada há dois anos, se tornará prateada.

 

Inconveniência

Da série perguntas inconvenientes mais ouvidas ao longos dos últimos dois anos:

Mas você é tão pequena, parece frágil: sim, eu tenho 1, 63. Em média 10 cm menor que todos do pelotão. E tive que dar conta do que todo mundo deu.

Mas você é mulher: sim, e não me trataram diferente por isso.

Mas não é dificil? Sim. Rotina pesada, pouco sono, muitos estudos e muita atividade física.

Mas não é perigoso? Às vezes sim. Fiz coisas que minha mãe não deixaria, tipo entrar em casas pegando fogo, pular do helicóptero no mar, pular de um costão à noite, fazer rapel da cachoeira, mergulhar em um tanque escuro em apneia e coisas do tipo.

Não dá medo? Sim. Pra caramba. Mas, se der medo, vai com medo mesmo.

E já sabe para onde vai? Tem que ir pro interior, né? Consegue voltar logo pra Floripa? Vou para onde a Corporação precisar de mim. E ficarei o tempo necessário. Talvez não queira voltar.

E a partir de agora sou a Aspirante a Oficial Bombeiro Militar Luíza. Obrigada a todos pelos comentários que tive que ouvir e responder ao longo destes dois anos. Eles me tornaram mais forte e me deram mais certeza de que eu estava no lugar certo e de que eu não queria fazer nada diferente disso. Para sempre.

100 dias (2)

Estou a 100 dias da formatura do meu Curso de Formação de Oficiais. Sabe o que é mais legal? Que os 630 dias que faltavam já estão quase acabando, de acordo com a contagem deste último post aqui.

A 100 dias da formatura já passei por 67 disciplinas, já viajei pra lugares que não conhecia, fiz atividades que nem sabia que teria coragem. Meu conhecimento e comprometimento com a carreira aumentaram e a vontade de mudar o mundo também. E assim, contando que cada dia mais é um dia a menos, estou ansiosa para me formar e aprender ainda mais, pois sei que o CFO é apenas a um gostinho, uma base de tudo aquilo que ainda tenho para vivenciar.

Ponto de Ancoragem

Na aula de Psicologia aplicada a desastres, o instrutor comentou a respeito das referências que temos em nossas vidas: somos bombeiros militares, mas e quando estamos de folga, quem somos?Além disso, o que fazemos e o que esperamos? Quais são nossos pontos de ancoragem?

A ideia fez alusão ao dispositivo de ancoragem nos prédios para salvamento em altura. Se estamos ancorados em apenas um ponto, se aquele falhar, perdemos nossa referência e cairemos do prédio. Porém, em quanto mais pontos diferentes estivermos ancorados, mais seguros estaremos no caso de um dos cabos se romper ou for cortado.

Um dos exemplos dados é em relação a aposentadoria. Quando nos aposentamos, cortamos a corda ‘Bombeiro Militar’. E por isso, se estivermos ancorados em outros pontos, esta perda não será tão grande em nossas vidas. E isso não acontece só no CBMSC. Alguns exemplos são os grandes empresários, que perdem suas famílias, seu lazer, férias, divertimentos, saúde, companhia de amigos, em prol do trabalho. E um dia isso acaba. A pessoa se vê sozinha, sem outras referências. Às vezes é tarde para recuperar o tempo perdido. Mas, com algum esforço, é possível reconstruir uma vida nova.

Um filme que trata deste tema é o Divertidamente, que está concorrendo ao Oscar na categoria Melhor Animação: a história gira em torno da mente de uma garota, Riley, tendo como grandes protagonistas as cinco emoções responsáveis por conduzir sua vida: Alegria, Tristeza, Raiva, Medo e Nojinho. Lá, fica bastante claro como construimos nossas referências e como elas podem ser perdidas facilmente.

Eu amo a profissão que escolhi, mas tenho consciência de que o trabalho não é tudo, apesar de atualmente, ocupar muitas das minhas referências de vida. Mas sei que é necessário criar outros pontos de relacionamento e referência, até para manter a qualidade do meu trabalho. E assim, vale a reflexão: além do Corpo de Bombeiros Militar, no que mais irei ancorar minha vida?

 

4º CFO

E neste domingo iniciou meu quarto CFO. Quarto e último semestre do Curso de Formação de Oficiais do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina. Sei que muitos desafios ainda me esperam nestes próximos quatro meses, mas estou empolgada. Cada dia é uma luta nova e uma oportunidade de me tornar mais forte.

Todos os dias preciso me superar, lembrar dos meus objetivos e continuar pelejando. Não há tempo para fraquezas nem para desanimar no meio do caminho. Estou aberta para aprender tudo que puder, me conhecer mais e saber tomar decisões sábias e lidar com todas as dificuldades que estiverem a minha frente. “Pedras no caminho? Guardo todas: um dia construirei um castelo”.

Ready, Fight!

Diversos desafios têm se colocado a minha frente nos últimos tempos. Crescer doi, mas é necessário. E eu tenho usado isso a meu favor. Minhas experiências recentes mostram que, apesar de a minha missão pessoal ser tornar o mundo um lugar melhor e que gentileza gera gentileza, nem todo mundo pensa e age assim. As pessoas podem ser más e sacanas. E podem te prejudicar só por não gostarem de você.

Não que eu não soubesse disso, mas sempre parto do princípio de que as pessoas são legais e honestas. E justas. E é ai é que devo ficar mais atenta. Porém, isso não muda quem eu sou nem eu quero ser. Ando mais otimista, forte e decidida. Eu sou uma princesa e, sendo desafiada, estou pronta para mostrar que minha voz de comando é potente e que, apesar do meu jeito meigo, encaro qualquer luta que se apresente a minha frente, tipo nos velhos tempos do judô. E entro para vencer.

Rocky Balboa, em seu discurso inspirador, apresenta bem o sentimento que tenho tido:

“O mundo não é só alegria e arco-íris. É um lugar mau e sujo. E não importa quão durão você seja, ele vai te por de joelhos e te deixar assim se você deixar. Nem eu, nem você, nem ninguém vai bater tão duro quanto a vida. Mas não é o quão duro você bate, é o quanto você consegue ser atingido, aguentar e seguir em frente. É assim que você vence. Se você sabe qual é o seu valor, vá e conquiste-o. Mas você precisa saber que vai ser atingido”.

I’m so Ready. Let’s Fight!

1 ano!

Hoje eu completo 1 ano de CFO. Um ano inteiro se passou desde que ingressei nesta corporação. Quando a escolhi, não tinha a dimensão de que estava entrando para uma nova vida. Quem escolhe os bombeiros ganha uma vida, não uma profissão.

A farda é minha segunda pele, não apenas uma roupa. Na verdade, me sinto mais a vontade quando estou fardada por que ela representa quem eu sou. Eu deixei de ser a jornalista, administradora, consultora de moda, editora do G1 e princesa de all star. Tudo isso entrou para uma caixa nova. Eu sou bombeiro militar agora.

Neste primeiro ano de carreira aprendi muito. Vi pessoas motivadas: aquelas que correm atrás e não desistem no primeiro não. Conheci aquelas que transformam o mundo em um lugar melhor. Aquelas que colocam a corporação como prioridade, que não conseguem passar por um acidente sem parar para atender. Ou que não conseguem ver o sofrimento alheio sem fazer algo para ajudar.

Em contrapartida, como em todos os lugares, encontrei o oposto. Mas, isso não me desmotiva. Pelo contrário: como aluna da escola de líderes sei que cada um tem uma batalha diária a ser vencida e não cabe a mim julgar os motivos para as atitudes individuais. O que eu posso fazer a respeito? Ajudá-los a encontrar o melhor caminho para si dentro desta corporação que a cada dia mais me fascina.

Como já disse anteriormente neste outro post eu já não sinto medos. E, agora, depois de ter vencido os primeiros 365 dias, torno-me mais próxima de ser uma Oficial do Corpo de Bombeiros Militar. E o melhor? Não gostaria de estar em nenhum outro lugar ou de ser qualquer coisa diferente disso.