Farda

Antes de entrar para o CBMSC, eu sempre ficava escolhendo looks para ir trabalhar. Agora é mais fácil, pois tenho fardas! E em geral, uso o 5ºA, que é prático e confortável. Mas a farda é demais. Eu me sinto muito massa fardada. Não só por que ela representa minha carreira e profissão, mas por que ela me veste como um escudo. Eu me sinto protegida, sinto que ela mostra quem eu sou. Às vezes nem de laçarotes me sinto tão “eu”.

Como bem disse o General Octávio Costa, “a carreira militar não é uma atividade inespecífica e descartável, um simples emprego, uma ocupação, mas sim um ofício absorvente e exclusivista, que nos condiciona e autolimita até o fim. Ela não nos exige as horas de trabalho da lei, mas todas as horas do dia, nos impondo também nossos destinos. A farda não é uma veste, que se despe com facilidade e até com indiferença, mas uma outra pele, que adere à própria alma, irreversível para sempre”.

Planos

Eu tenho vontade de fazer várias coisas na vida ainda. Algumas sei que são mais viáveis, outras nem tanto. Mas, às vezes, eu penso em fazer mil coisas e, na hora de realizar, não parece tão legal. Por exemplo, eu quero pegar a faixa preta de judô. Mas sei que isso vai me exigir um esforço grande, horas de dedicação, treinos, etc. Ai eu penso que talvez não seja a prioridade do momento, acabo pensando “ah, ok, um dia eu faço isso” e passam vários anos.

A mesma coisa acontece quando penso em participar de provas de corrida, maratonas aquáticas, fazer uma pós graduação, participar de um congresso ou um curso. Ai vamos dizer que eu consegui vencer a inércia e estou lá, realizando esta coisa. Então eu percebo que a ideia de realizar aquela atividade é muito mais legal do que a realização dela em si. Por quê? Por que me tirou da zona de conforto. Pensar e idealizar é fácil, mas só “estando nesta carcaça para saber” que a realização não é fácil. Custa suor, dedicação, força, às vezes lágrimas e sangue.

E isso vale para qualquer coisa. Até posso achar que vai dar algum trabalho, mas só executando a tarefa em si para ter noção de como é. Às vezes, é mais fácil do que parece. Às vezes vai custar-me mais do que o previsto. Porém, posso dizer que, no final, o resultado é demais. Cada esforço vale a pena. E sempre teremos, além da realização de objetivo ou sonho cumprido, as histórias e lembranças para contar. E quem sabe esta coragem de vencer a inércia nos fortaleça, fazendo com que fique cada dia mais fácil correr atrás de nossos sonhos e planos.

Malvado favorito

Estes dias fomos assistir ao filme Meu malvado favorito III. Este filme é muito bonitinho e traz várias lições de amor interessantes. No primeiro filme, nosso vilão Gru leva uma vida voltada para o mal, juntamente com seus ajudantes um tanto atrapalhados (Minions, que roubaram tanto a cena que ganharam um filme só pra si).

Neste primeiro filme, para derrotar seu inimigo, ele adota três meninas de um orfanato da cidade. A mais velha, muito madura, a do meio, um tanto quanto espivetada e a menor, Agnes, coisa fofa e minha favorita. Ela é inocente, pura, e tem certeza de que vai ser feliz na nova casa, mesmo não sendo feita de gelatina nem tendo uma recepção calorosa por parte do novo pai.

Ao longo do filme, podemos ver o poder do amor e como ele transforma o relacionamento da nova família e aquece o coração do Gru. Ele, de vilão, solitário e mal-amado passa a ser um pai preocupado, carinhoso e que faz de tudo pelas filhas, pelo outro lado, as filhas aprendem a lidar com o jeito durão do pai e a amá-lo exatamente desde jeito, dando, inclusive, palpites para os planos malvados dele. Gru passa, inclusive, a tratar seus minions melhor.

Mas, eles, que estão sempre em busca do chefe mais malvado de todos, abandonam seu líder e partem em busca de alguém “pior”. Mas, como o amor sempre vence, tudo dá certo e eles continuam a ser uma família feliz e unida. Ao longo dos três filmes a tratativa de família está sempre presente: relacionamentos, inseguranças, separações familiares, rejeições.

Tudo isso nos ajuda a entender como cada personagem foi moldado e se tornou daquela forma. Obviamente, a ficção muitas vezes reproduz a realidade e traz um retrato de muitas famílias que, apesar de destruídas ou capengas, ainda podem ser salvas pelo amor.

Julgamentos

“Se a imaginação fervilha à volta de ti mesmo, cria situações ilusórias, composições de lugar que ordinariamente não encaixam no teu caminho, te distraem tolamente, te esfriam e te afastam da presença de Deus. – Vaidade…Se a imaginação é acerca dos outros, facilmente cais no defeito de julgar (quando não tens essa missão) e interpretas de modo rasteiro e pouco objectivo o seu comportamento. – Juízos temerários…Se a imaginação esvoaça sobre os teus próprios talentos e modos de dizer, ou sobre o clima de admiração que despertas nos outros, expões-te a perder a retidão de intenção, e a alimentar a soberba”. Este texto é do Livro “Sulco”, de São José Maria Escrivá e é minha leitura espiritual do momento.

Temos a tendência de julgar as pessoas por diversos motivos: por como se vestem, por como falam, por seus empregos, por sua aparência e cuidados com si. Por sua maquiagem e outras coisas rasas. Se simplesmente conseguíssemos nao julgar seria muito mais simples. Para fazer este exercício de não julgamento e comparação sobre a vida alheia, passei duas semanas sem entrar no Facebook e no Instagram. E minha vida melhorou muito. Fiquei mais focada, menos dispersa e mais serena. Minha ansiedade diminuiu muito. E todos aqueles pensamentos de cobrança também.

Sei que existem muitos lugares para conhecer ainda, mas sei que não preciso conhecer tudo no próximo final de semana. Sei que existem corpos malhados, histórias de mães super bem sucedidas e estas coisas. Mas eu não preciso me alimentar disso. Preciso me alimentar do que faz bem, do que contribui para o meu bem estar e para minha vida. E essa exposição toda estava me fazendo mal. Não que eu postasse muita coisa, mas eu via muita coisa. E não estava me fazendo bem. Todos os dias eu pensava nas coisas que eu “tinha” que fazer. E estou muito liberta disso tudo.

E as nossas vidas são, como o próprio nome já diz, nossas. Com as minhas escolhas vou desenhando a paisagem e construindo as rotas. Ninguém sabe o quanto eu batalhei para as minhas conquistas e eu também não sei como foi a trajetória de cada um para estar onde está hoje. Assim, não fazem sentido as comparações que costumamos fazer, podendo, inclusive, nos envenenarmos. Assim, sem comparações e julgamentos, podemos focar no que realmente importa: o nosso caminho.

Melhor pai

Por que meu pai é assim. Sempre me protegendo: no dia do casamento, abriu a porta do carro e segurou o guarda-chuva para eu não me molhar. Neste dia, ele estava de braço dado comigo, esperando a porta ser aberta para encarar minha próxima aventura. Foi ele que, com passos decididos, me manteve firme ao seu lado e me deixou mais segura. Eu tinha a opção de estar sozinha quando a porta abrisse, mas eu não quis. Como assim encararia tudo aqui sozinha? Quem estaria comigo naqueles breves instantes de ansiedade?

Nós estávamos rindo e nos divertindo. Algumas noivas estariam surtando. Mas, na verdade, tudo fica mais fácil quando se tem uma dupla desta. E esse é um momento de alegria, parceria e proteção que se repetiu infinitas vezes antes desse dia. Como na vez em que ele descascou o ovo para que eu não engolisse nenhuma casquinha. Ou perguntou, quando eu passei no concurso dos bombeiros “se eu faria todas aquelas coisas perigosas que o Fábio tinha feito”. E depois do casamento quando, no telefone, pergunta se eu estou feliz e se o Maurício é um bom marido. É por todas estas coisas que ele é o melhor pai do mundo ❤

Vida zerada

Eu sempre tenho uma “To do List”, seja no trabalho, em casa, assuntos pendentes, passeios, lugares para conhecer… (quem nunca?). No trabalho, assim que resolvo uma missão, outras duas novas surgem. Algumas são feitas rapidamente. Já outras demoram o equivalente a séculos por diversos motivos – que nem sempre dependem de mim, diga-se de passagem. Em relação a estas, aprendi que tudo acontece no seu tempo e que nem sempre eu tenho como acelerá-lo.

Mas, estes dias eu estava pensando que, na verdade, estas listas nunca vão zerar. Nunca vai acontecer de eu terminar tudo que tenho para fazer. E sabe por quê? Por que estou viva. A nossa vida é mutante e evolui todos os dias. O mundo, todos os dias, nos apresenta situações inusitadas e novas tendências. Se tudo ficasse parado e fosse estático, qual seria a graça? Assim, é impossível termos uma “lista da vida” zerada.

Por que depois que terminarmos a nossa lista atual (digamos a de curto prazo), sempre terá um lugar novo, uma comida diferente, um restaurante que abriu, um livro que alguém nos sugeriu ou algo diferente que nos desperta a imaginação. E coisas que não nos atraem hoje podem nos atrair daqui a algum tempo, depois de termos novas experiências e um pouco mais de maturidade. Assim, sempre teremos algo novo para fazer. Iremos fazer novos amigos, conversar sobre assuntos diferentes. Todos os dias quando acordamos já somos diferentes. E se mudamos de ideia a curto prazo, quem dirá a longo.

E pensando bem, qual seria a graça de uma vida zerada? Uma casa pronta, sem novas ideias, novos planos? Estaríamos estagnados, sem coisas que nos motivassem a nos mexermos e sairmos do lugar. Talvez por algum tempo estivéssemos satisfeitos. Mas, quanto tempo duraria essa realização? A sensação de fazer algo novo pela primeira vez é tão positiva que, em breve, enjoaríamos de não fazer nada diferente.

E você, que nunca pensou em estudar alemão, viajar para a China ou experimentar uma comida árabe, talvez se interesse por estes novos assuntos. Talvez você conheça alguém que pediu licença do trabalho e foi para um lugar que você nunca ouviu falar. Quem sabe, um restaurante recém aberto na esquina da sua casa, o qual você nunca reparou, te chame atenção e você resolva entrar. E assim, todos os dias, iremos incrementando nossas listas de coisas a fazer, que, afinal, sempre nos motivam a novas descobertas e experiências.

Pôr do Sol

Há quase um mês, no dia em que meu avô faleceu, vi o pôr do sol mais bonito da minha vida. Na estrada, a caminho do meu último encontro com ele, o céu mudou de cor de uma maneira fantástica. Praticamente um degradê de todas as cores, colorido, brilhante, marcante. Assim como sua vida tinha sido. Poético, já que aquele dia findava – da mesma forma que sua vida umas poucas horas antes. Então comecei a pensar e fazer uma comparação do dia com a nossa vida: o amanhecer, o pôr do sol, o anoitecer. Todos representam etapas do dia e da nossa vida. Amanhecemos para uma nova vida quando nascemos e anoitecemos para ela quando morremos.

Vendo aquela cena, gostaria que ele estivesse vendo. Então, junto com a tristeza, me veio um sentimento bom. Que sim, ele também estava vendo aquele lindo espetáculo: com seu corpo glorioso, já no céu, ele estava vendo o mesmo pôr do sol que eu, só que espelhado. E da mesma forma que eu olhei e lembrei dele, ele estava lá, olhando e lembrando de todos nós que ficamos. Alguns dias depois, um amigo postou no Face uma frase que achei fantástica e que traduzia exatamente o que eu queria com este texto – segundo ele, aprendida no Exército Brasileiro: “O pôr do sol marca apenas o início de uma nova jornada”.

Ilusões

Às vezes eu passo muito tempo nas redes sociais. E isso, na verdade, não é bom. Não só por empregar tempo e energia em algo que não é produtivo, e que pouco me acrescenta, mas, pela frustração. Há perfis e mais perfis, principalmente no instagram, que mostram a vida dos sonhos: em um, trocentas viagens ao redor do mundo para os mais diversos lugares (sempre lindos e mesmo que você já tenha estado lá, as fotos sempre mostram um ângulo que deixam tudo muito melhor e mais bonito). Em outro, corpos perfeitos, fotos sempre profissionais de barrigas chapadas, pernas torneadas, pratos saudáveis… e assim por diante. O lifestyle das redes sociais é muito injusto e exigente. Faz com que nos sintamos menos.

Esses perfis me fazem valorizar as viagens que não fiz,  o corpo que não tenho e tudo aquilo que eu “ainda tenho que fazer” ao invés de investir energia na minha própria vida, que, aliás, é maravilhosa e acima de todas as minhas expectativas. Posso não ter ido pra Indonésia, que parece ser um novo point da galera, mas só este ano já zanzei bastante por ai, seguindo meus sonhos e minhas possibilidades. Posso não ter o corpo mega malhado, mas hoje acordei cedo e fui nadar. Ontem, escolhi não tomar Coca-cola: minhas pequenas vitórias de vida saudável. Sinceramente, elas valem muito para mim, mesmo que não rendam uma curtida no Facebook.

Mas, eles são irreais. Como diz meu marido, aquela pessoa tem aquele corpo por que ela vive disso. Aquela pessoa do blog de viagens também. Ou você conhece alguém próximo que não seja assim? Todos temos nossos compromissos, trabalho, vida social, amigos, dias de preguiça…quando eu treinava loucamente para entrar no CFO, tive o corpo mais forte da vida: mas não comia nada fora da dieta, não saia com amigos e treinava em todo meu tempo livre: tempo que aguentei assim? Dois meses! Aliás, esta questão de curtidas também é perigosa: pode fazer com que valorizemos aquilo que os outros “gostam, curtem, reagem” e que não necessariamente é como nos sentimos – ou até mesmo pode fazer com que nos sintamos menos valorizados por causa da reação dos outros. Assim, é necessário que reflitamos sobre aquilo que é importante para nós mesmos, que valorizemos aquilo que nos faz feliz, estes pequenos (ou grandes) momentos que nos fazem sentir realizados. E que vivamos mais os momentos reais e menos os virtuais, afinal, a vida não é ideal, ela é real.

 

Responsabilidades

Quando queremos muito alguma coisa, isso gera uma responsabilidade. Por exemplo, vemos aquelas meninas maravilhosas no instagram, com corpos lindos e malhados e pensamos “quero ficar igual”. Mas ai, para isso, tem que acordar cedo, malhar muito, comer pouco, dormir bem, não beber na balada, não ir na balada e focar a vida toda nisso. Ou eu quero prestar um concurso para ter um salário milionário ou para ter a carreira dos sonhos: preciso estudar muito, organizar meus dias e horários, me matricular em um cursinho, abrir mão de períodos de folga e de netflix para isso.

Mas ai, dá muito trabalho, precisa muita responsabilidade. Então concluímos que nem queríamos tanto, já que, o esforço que teremos que empregar é muito maior do que a nossa vontade real de ter aquilo. Sei que precisarei de bastante esforço, que os resultados não aparecem do nada. Claro que, quando estamos focados e decididos, os empecilhos não são obstáculos tão grandes. Porém, muitas pessoas não admitem o quanto querem algo pelo medo de falhar, pelo medo da cobrança alheia (ah, mas se queria tanto deveria ter estudado mais, comido menos, guardado mais dinheiro, se esforçado mais)

E quando contamos para alguém, gera mais responsabilidade. Por que nós somos os fiscais da vida alheia. Isso é natural. E ainda temos o péssimo hábito de dizer “se eu fosse o fulano, eu faria diferente”. Mas, cada um tem suas metas, seu tempo e seu estilo de conquista.  Não devemos julgar o que faríamos no lugar do outro por que não sabemos qual foi a trajetória dele até ali. Mesmo que conheçamos a pessoa desde sempre, não vivenciamos seus medos, não sabemos quais são os pensamentos que borbulham em sua mente. Podemos até imaginar, mas sentir por ela, impossível. Desta forma, quando alguém quiser compartilhar sonhos, vontades e metas, incentive. Acompanhe gentilmente, mas não cobre. Não julgue. O peso das responsabilidades e cobranças já é grande e não é necessário sobrecarregar ninguém.

(im) produtividade

Detesto este sentimento de improdutividade. Um pouco é a minha mania de querer fazer tudo, abraçar o mundo. Um pouco é do humor do dia. Tem aqueles dias que parecem que não foram feitos pra trabalhar, que o ritmo em que você está não é o mesmo em que o mundo está. E tudo parece lento. Até existe a concentração, mas tudo tem que ser devagar, com calma. Em que cada vez que o telefone toca, além de levar um susto, penso “tomara que não seja pra mim”. Mas às vezes é. E não tem jeito. Tenho que me sacudir e sair do slow mood. Ai chego ao fim do expediente com a sensação de que não fiz nada, o que, na verdade, é um engano. Fiz sim, até bastante coisa: só não em um ritmo tão frenético quanto o normal.

Às vezes é bom desacelerar e perceber que a vida não precisa ser tão corrida. E às vezes é frustrante não ter o dia perfeito no trabalho. E na vida… Pois, claro, tenho uma ideia do que é o dia perfeito: levantar cedo, fazer alguma atividade física, organizar a casa, zerar as pendências, e assim por diante. Faço, basicamente, o que me proponho a fazer na minha rotina. Mas o mais legal da vida é ter dias diferentes: aquele dia em que durmo até mais tarde ou vou passear no comércio ou até, me permito ler um livro ao invés de ir correr. O que eu tenho que ter em mente, na verdade, é que a vida não é uma lista de tarefas a serem cumpridas. A vida é composta destas escolhas singulares que fazemos. São estas “fugas” do devo para o que eu quero. São as pequenas surpresas escondidas na próxima esquina. E, entre dias mega produtivos e os nem tanto, a vida se torna este mosaico de sentimentos, sensações e escolhas.